O conto da Carochinha do Racionamento de Água no DF

31123

O Conto da Carochinha, como minha avó dizia, equivale para a galera mais nova aos Fakenews. Coisas repetidas mil vezes, por mais que não sejam verdadeiras, são vendidas como tal.

É o que acontece com a tal da crise hídrica no Distrito Federal. Infelizmente não temos acesso aos reservatórios, mas vamos a uma simples análise matemática para mostrar, o que talvez seja, falhas de medição no nível dos reservatórios, ou a completa manipulação dos números.

Para medir um volume de uma caixa de sapato por exemplo, multiplicamos sua altura x seu lado maior x seu lado menor. Ou seja, se diminuirmos a altura dela, automaticamente diminuiremos proporcionalmente seu volume.

É isso que acontece com os reservatórios, a altura dele é a altura de sua barragem, da construção feita pelo homem para armazenar a água. Isso significa que se tivermos uma barragem com altura de 10m, se o reservatório atingir 3m de altura, este estará com volume de 30% da sua capacidade.

Aí alguns chegarão e argumentarão que existe depressões e que o fundo do reservatório não é regular como uma caixa. Sim, realmente isso ocorre, porém esse o chamado volume morto, reservas de água abaixo da linha de captação.

Agora vamos aos estranhos números do DF. Em 1º de novembro de 2017, a pouco mais de dois meses, o reservatório do Descoberto, aquele que todos veem quando vão em direção a Águas Lindas, estava com seu nível, segundo dados da ADASA, em 6.0%. Ou seja, se a barragem do Descoberto tivesse 10m de altura, o nível da água não poderia ultrapassar 60cm, mais ou menos estar no joelho de uma pessoa que entrasse no lago.

Ocorre que em imagens aéreas feitas pelas emissoras de TV, ou mesmo quem passava por lá podia ver que havia sim uma faixa de areia marcando a diminuição do nível das águas, porém nada fora do normal para a época de seca, nem nada perto a deixar o reservatório com 60cm de profundidade.

Ademais, na mesma data o reservatório de Santa Maria estava com 22,3% do seu volume, segundo a própria ADASA.

Já no dia 08 de janeiro de 2018, pouco mais de dois meses depois, a barragem do Descoberto está com seu nível em 35,4%, um aumento de 490%, digno de milagre ou obra do pajé contratado pelo governo no ano passado para fazer a dança da chuva.

No mesmo período o reservatório de Santa Maria saltou dos 22,3% para 31,8%, um aumento bem mais modesto de 42%, dentro da média no período de chuvas. Pasmem, o Descoberto está enchendo quase 12X mais rápido que Santa Maria. Acho que a melhor reação aqui seria colocar o emoticon do whatsapp de assustado, mas não posso.

São Pedro tem ajudado mantendo as chuvas nas médias históricas, segundo o INPE, ambos os reservatórios estão sob regime de rodizio no fornecimento, então o que explica essa mudança brusca nos números?

E pior, o reservatório de Santa Maria é menor que o do Descoberto, então não deveria encher mais rápido e não de forma mais lenta?

Os números do governo não batem, a população sofre com racionamentos que eram para durar um dia e acabam durando dois, três ou mais e ninguém sabe ao certo o que ocorre em nossos reservatórios.

Mas vale lembrar, estamos em 2018, ano de eleição e está aí uma ótima bandeira, “salvei os reservatórios de água de nossa cidade”. Esperemos para ver em outubro, pois todos os postulantes ao Buriti terão algo a falar sobre a tal crise hídrica do DF.

O Outro lado

Ao ser questionada sobre a diferença de alta no nível dos reservatórios a ADASA respondeu:

Isso ocorre porque o reservatório do Descoberto possui 6 afluentes, o dobro do Santa Maria. Além disso, é necessário considerar que os afluentes do Santa Maria apresentam vazão mais reduzida que os do Descoberto, resultando em uma recuperação mais acelerada do segundo. 

A ADASA ainda foi questionada sobre o fim do racionamento, informando que não há previsão para isso mesmo com a melhora dos reservatórios, mesmo que seja apenas como caráter educacional o racionamento irá continuar até os reservatórios atingirem 100% do volume.

Apesar do período de chuvas, o volume de água tem diminuído a cada ano e o déficit de acúmulo de água nos últimos três anos tem sido acentuado. Este ano choveu bem menos do que toda a média histórica acumulada dos dois reservatórios e o aumento populacional e extensa ocupação do solo tem aumentado constantemente, o que gera maior gasto de água. As ações educacionais e de racionamento quanto ao uso racional de água precisam se manter e serem adotados e inseridos na rotina do brasiliense. E até que o volume de água nos dois reservatórios verta (chegue à sua capacidade máxima), o racionamento de água irá se manter para que a população entenda e adote medidas diárias de redução de consumo e conscientização ambiental em relação aos usos dos recursos hídricos.

 

Fazer comentário